Enquanto nas gravações soterradas na neve o que se ouve são a inércia e os gritos finais dos passageiros, na caixa preta do afeto o cenário é diferente. Brados, sim, mas de apego, estampidos não de diesel, e sim de adoração, sussurros desesperados de pânico e paixão. O medo da perda e da solidão. Que loucura, o quê. Foi, na verdade, o amor quem jogou o avião no chão.
Foi abandonado no altar, o moço, dizem as notícias. E é então quando não mais importam as montanhas de atestados que se encontrem. Que vasculhem gavetas, pastas, memórias rígidas. Que se comprovem diagnósticos cabeludos, doenças inéditas, pedaços faltantes do cérebro ou incapacitantes travas nas mãos, pés, no peito.
No copiloto havia um buraco.
Daqueles que remédios não curam. Que desabafos no ombro de trinta cabras amigos amenizam, mas só pra voltar a latejar e doer na manhã seguinte.
Um homem com uma dor no comando.
Possível que, além da cabine, tenha se trancado tantas outras clausuras, só pra fugir do desamor de ser largado, a sós com a rejeição.
Possível também que fosse louco, por que não. Afinal, como disse o poeta, nenhuma morte é possível – sua ou de outrem.
Mas se há uma certeza espalhada entre os destroços dos Alpes é a de que, antecedendo a queda e a colisão, um coração já havia explodido bem antes daquele barque.
O Foi o amor que derrubou o avião Blog Bonitinha, mas Ordinária.

