Olha só que gostoso, não falei? Não tem nada melhor do que ficar aqui quentinho, juntinho, sentado nesse sofá macio e assistindo o índice do Netflix. Uma pena de fato que não consigamos escolher absolutamente nada, filme algum, série, documentário de golfinhos ou mineiros chilenos, mas o importante, ah, o importante mesmo é que a gente esteja aqui.
Ou também podíamos estar lá, não sei. Nas poltronas reclináveis, ou na cama, de repente.
Quem sabe devêssemos ter ficado na minha casa, né, e não na sua. Onde é melhor? Qual é mais fofinho?
Enfim, como eu dizia, que delícia. Adoro quando a gente não sai e fica aqui assim sem fazer nada. Quer dizer, nada, não, que a gente até que tá tentando fazer alguma coisa. Esse filme, por exemplo, que não sai. Olha só quanta opção. A gente fica querendo escolher o melhor e tá sempre com medo de pegar um mediano e o melhor ficar lá de longe sem dar play só rindo da nossa cara porque, né, optamos por um meia boca que nem era tudo isso mas agora vamos ter que ir até o final. Baita compromisso.
Tô abrindo aqui o pra gente pedir a pizza, tá? Você quer de quê?
Calabresa, não, poxa, você não lembra que eu não tô comendo carne? Sim, amor, peixe é carne. Tudo bicho. Topa alcaparra? E berinjela? Sei lá, de repente era jogo mudar prum jantarzinho árabe, hein, que lá tem bastante opção de legumes. Aquela pastinha bege pra esfregar no pão.
De sobremesa podia ser um sorvete, eu acho. Com calda de chocolate. Que aí eu ia te convidar pro quarto e levar o potinho e a calda e te fazer umas travessuras deitados na cama ouvindo aquela musiquinha que a gente gosta.
Se bem que eu enjoei daquele disco. E também não ando com saco pra sacanagem.
Tô mais numa vibe mais casta, sabe. Você não? Dizem que relacionamentos têm fases, dia que a gente gosta, dia que não gosta mais. Daí pega e volta a gostar e daí às vezes já é tarde demais.
Mas com a gente, não, né? Que a gente combina. Os dois gostam de filme, de pizza, de sorvete, de cama, de árabe, de índice, de calda, de poltrona. Isso exceto os dias que a gente não gosta muito, e daí prefere um monte de outras coisas.
Talvez esta seja uma daquelas semanas. Quando a gente não consegue nunca mais escolher nada, se irrita um com o outro, a noite acaba cagada e todo mundo repensa tudo, joga fora aliança, fica sem se falar por horas.
Dias que a gente se questiona por que escolheu este e não outro. que ela e não a outra. que um e não dois, branco e não preto, baixo e não alto, pelo ou não pelo. Difícil escolher entre tanta opção boa. Preguiça de analisar todas.
E por isso mesmo que a gente continua junto. Pela constatação de que a-gente-fica-querendo-escolher-o-melhor-e-tá-sempre-com-medo-de-pegar-um-mediano-e-o-melhor-ficar-lá-de-longe-sem-dar-play-só-rindo-da-nossa-cara-porque-né-optamos-por-um-meia-boca-que-nem-era-tudo-isso-mas-agora-vamos-ter-que-ir-até-o-final. Baita compromisso, eu acho.
O Indecisão Blog Bonitinha, mas Ordinária.
