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Cinzas

11 DE MARÇO

Aquela porção enorme de mesocarpo estava lá exposta pra quem quisesse ver: um dorso liso e reluzente virado pra cima, a textura porquê uma esfera de borracha, e o rasgo quase fundo que atravessava de uma ponta à outra o corpanzil inerte. Dona Barda não considerou lá uma grande notícia outra baleia encalhada na areia, mas ainda assim calçou os chinelos e fez o esforço de descer até a praia. Considerando o horário, aproveitava-se ainda a viagem para colher o pão. Gonçalo, o porteiro, tirou o interfone do gancho, para ninguém incomodar, e fez o mesmo, levando junto a sombrinha por desculpa da garoa.
– Disseram que é pesada demais pra colocar no caminhão, explicou o rapaz com a mão esticada, apontando uma carreta na lajeada. Vão serrar em três, é a única solução.

Dona Barda sonhou, aquela noite, com os fragmentos da baleia dilacerada. Despencando do sobranceiro sobre uma travessa de prata, as vísceras se amontoavam todas num estrondo gosmento, umas desmaiando por cima das outras, numa rima dantesca de sangue e ossos partidos. A morte é sádica, pensou, e eu é que não quero ser dividida em pedaços quando a má hora chegar.

23 DE SETEMBRO

Gonçalo entrou com a família no apartamento usando uma transcrição da chave, e logo ali já dava pra ver a velhinha morta, providencialmente instalada em cima do sofá. Pensava em tudo, essa Dona Barda, até na hora de morrer tratou de se concordar pra não permanecer lá caída no soalho. Trabalho para quem fica, não, se isso é coisa que se faça. Enquanto ia se deixando tomar pela nostalgia instantânea da antiga moradora, o porteiro viu o envelopinho bem na cristaleira. Filhotes, meus queridos. Passei desta, logo se vê. Cremação é um troço digno, acreditem, talvez o mais digno para horas porquê essa. Não me picotem, pelo paixão, quero virar pó e me dissolver no mar. Com carinho, vossa mãe.

O Cinzas em Blog Bonitinha, mas Ordinária.

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