Doente imaginária
Quer uma cestinha? Quero. Muito. Me dá logo três. Não tem carrinho? Sabe como é, quando entro numa farmácia fica meio impossível me controlar. Deslizo feliz entre as gôndolas, desando a precisar de tudo, acho que tenho diabetes, joanete, lábio rachado, de fica mesmo a seção do mertiolate?
A moça me estende uma promoção do pack com três desodorantes. Haja cecê. Mas, veja, tá mega conta, economia total de 7 reais, poxa vida. Isso dá o quê, uns dois cafezinhos e meio? Me dá que eu vou levar.
Só tem um problema: eu quero cheirar esse troço. Que cheiro tem o algodão inglês? Qual o aroma da atração, da sedução, da vida ativa? Esses nomes também não ajudam. Nem o gerente, que não deixa a gente provar. Talvez se eu me esconder aqui atrás do Rexona 48 horas de duração e der uma espirradinha… Merda. Rompi o lacre. Quem nunca.
O bom dos sabonetes é que a violação não fica tão evidente. É só futucar um buraquinho no fecho da lateral, ninguém nem vê que tá descolado, e aí apertar pra sair o perfume. Curto sabonete de velhinha. Sabão de tocador. E sou totalmente atraída por balagens com fotinhos de famílias saudáveis sem bactérias.
Por falar bactéria, tô precisando de álcool gel. Seria bom também uma água boricada, porque nunca se sabe. Gaze é ótimo, violeta genciana, nossa, olha que fofo esse negócio de tirar calo todo cor de rosa!
Meu maior problema, moço, é na verdade a celulite. Me mostra alguns daqueles seus cremes caros que agrecem. Sim, eu sei que não agrece, mas remove o aspecto de casa de laranja. Tem uma moça com uma almofada na bunda na propaganda. Sabe de qual que eu tô falando?
Virge, credo, muito caro. O que você tem de mais barato?
E pra rugas?
Queria que esticasse aqui, ó, tá vendo de faz um vinco? Sim, eu uso protetor solar todo dia. Eu sei me cuidar. Tô só te mostrando pra você entender. Aliás, é tão bom vir aqui, vocês me escutam, vocês me cuidam, eu me sinto tão importante.
E, mais do que tudo, eu gosto muito e especialmente da hora que o moço bonzinho do balcão me ajuda a preencher a receita do antidepressivo. Aquelas duas folhinhas juntas, com o cheirinho bom do carimbo para os dados, ah, que coisa boa.
Claro que eu vou avaliar o atendimento no caixa. Óbvio que eu tenho o cartão fidelidade. Obrigada, amiguinhos. E amanhã eu volto pra buscar alguns esmaltes.
O Doente imaginária Blog Bonitinha, mas Ordinária.
Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária