Hoje, só amanhã

Se de noite estou semi-morta, gelada e com o coração parando, de manhã é outra história. Esqueça meus notívagos cabelos molhados e sem forma, a carência de rímel e corretivo, que, ao nascer do sol, sou pura luz e magia clara.

A disposição matinal, no entanto, é algo pontual. Não faz ter vontade de me meter num par de tênis brilhantes e correr quatro quilômetros. Nem de faxinar a casa, escrever crônicas, enfrentar fila no banco. Estou disposta, mas, calma, que o vigor é outro.

Se eu acordei animada, é por um só motivo: eu quero lhe amar, amor meu, vida minha.

Enquanto no fim do dia só desejo o óbito, me brulhar esgotamento e falecer silêncio, no seu começo eu me assanho raios brilhantes de fogo autêntico.

Quer dizer, nem poesia eu quero, pra ser sincera. Esquece os raios, esquece o fogo, dane-se a pureza. Eu quero outra coisa. Eu quero é, bem, você sabe o que eu quero, que eu sei.

Porque somos do mesmo tipo. Do tipo que aproveita o dia e de noite dorme.

Sabemos que a melhor hora pro chamego é antes de levantar da cama.

Antes que a rotina toda atropele o tesão com a louça pra lavar, a lancheira das crianças pra arrumar, a loucura do trânsito e do trabalho todo. Alimentar o corpo antes de enfrentar a vida, recomendou o doutor. E óbvio que não era de sucrilhos com morango e leite que ele falava na receita.

A saúde se mantém mais fácil com a prática da manhã vadia.

Enroscada na sua quentura, ativa e radiante, me perco do que me obrigam os dias, e tudo flui de maneira tão linda que o universo conspira pra que o relógio breque uns instantes e não deixe a hora passar.

Por isso que quem ama antes de levantar nunca se atrasa para nada.

O cotidiano fica lá, suspenso e respeitoso, esperando que a gente termine. E ainda dá uma força na hora de descer da cama, nos calçando as pantufas discretamente enquanto flutuamos direção ao banho.

O Hoje, só amanhã Blog Bonitinha, mas Ordinária.

Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária