Impacto da violência na saúde mental

A relação entre a violência e a doença mental é direta. Não é preciso ser vítima de um assalto para apresentar sintomas similares aos de quem tem uma reação aguda ao estresse (por acidente ou roubo) ou estresse pós-traumático (TEPT). Basta ser um espectador, mesmo que passivo, de uma situação de risco. O desconhecimento sobre esses traumas leva a que poucos diagnósticos sejam fechados e, consequentemente, muitas pessoas sejam subtratadas.

Segundo o Dr. Marcelo Feijó de Melo, professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), 90% dos casos, os sintomas após um trauma tendem a reduzir no prazo de 30 dias, tempo necessário para que a pessoa elabore essa vivência e possa seguir frente. Este foi um dos temas abordados fóruns, palestras e simpósios durante o 33º Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Superar é preciso

A estimativa é a de que cerca de 10% das pessoas submetidas ao estresse pós-traumático não conseguem superar, seja por uma reação ao evento si ou por um problema psiquiátrico pré existente. Essa parcela da população tende a apresentar sensação de amortecimento, memórias repetidas e hipervigilância.

"No Brasil, o conhecimento sobre os aspectos que envolvem o TEPT tem crescido na última década. Pela prática clínica se chegou à conclusão que muitos dos diagnósticos para depressão estavam na verdade relacionados ao estresse pós-traumático", destaca o psiquiatra que é investigador de dois estudos patrocinados pela Fapesp nas áreas de Psicoterapia Interpessoal e violência e saúde mental.

Violência sexual

Entre as diferentes formas de violência que resultam TEPT está a sexual (presente todos os extratos da sociedade). Uma das questões abordadas no Fórum sobre Violência Urbana foi a ausência de se perguntar ao paciente (durante uma consulta médica) se o mesmo foi vítima de violência sexual. Tal abordagem é importante uma vez que muitos carregam esses dramas (abuso, estupro) pela vida afora quot;e que rasgam uma família ao meio", diz Carmita Abud, do (Prosex/USP). quot;A família tem dificuldade de falar sobre isso, sendo a vergonha ainda maior na classe média", pontua.

Outra temática urgente é a forma como os profissionais de saúde devem ser treinados para abordar corretamente o indivíduo com TEPT. quot;É importante fazer com que esse profissional se sinta compelido a estranhar e não achar a violência algo ‘natural’, uma vez que afeta o estado da pessoa no mundo". Isso ocorre porque cada caso de violência tem o poder de contaminar todo o entorno, gerando o estado de adoecimento de largo alcance.

É ainda pior

Muitos psiquiatras presentes ao debate relataram a dificuldade lidar diretamente com o problema da violência na prática diária ambulatórios de hospitais universitários. quot;Até começar a atuar nessa frente, achava que se tratava de sensacionalismo/ exploração por parte da mídia. Mas os problemas são muito maiores. O estresse pós-traumático é uma doença silenciosa; é angustiante ouvir as histórias", segundo descreveu um psiquiatra que atende no ambulatório de psiquiatria da UFRJ.

O efeito psíquico da violencia urbana (trânsito, droga, assalto) tem que ser considerado, uma vez que das dez cidades mais violentas no mundo, sete são brasileiras. É um recorde que tem seu preço, ou seja, o adoecimento da população. Nesse contexto também está a violência cometida via redes sociais, que cresce na mesma proporção que deixa marcas psicológicas muitas vezes profundas.

Dr. Marcelo de Melo idealizou e coordenou trabalhos humanitários parceria com a Cruz Vermelha Internacional (áreas de guerra e violência como de morros no Rio de Janeiro antes das pacificações e nas fronteiras da República Democrática do Congo. (GS)

Opinião do especialista
 
O papel da espiritualidade
 
Gisele Vasconcelos Serpa Dantas
Médica psiquiatra
 
O I Encontro Global Espiritualidade e Saúde Mental reuniu pesquisadores que estudam a relação entre espiritualidade e religiosidade diversas áreas da saúde mental. O encontro aconteceu durante o 33º Congresso Brasileiro de Psiquiatria.
 
Nas últimas décadas, estudiosos têm estado mais interessados investigar cientificamente a relação entre religiosidade e saúde, e a maioria dos estudos vem demonstrando que um maior envolvimento religioso está associado positivamente a indicadores de bem-estar físico e psicológico.
 
Passou-se a observar que o nível de envolvimento religioso e espiritual tende a ser inversamente associado a transtornos depressivos, de ansiedade, dependência de substâncias e comportamento suicida. De fato, o suicídio é um grave problema de saúde pública e resulta aproximadamente um milhão de mortes por ano no mundo.
 
Um grupo de pesquisa da cidade de Salvador, liderado pelo Dr André Caribé, psiquiatra e Mestre Neurociências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), vem investigando a relação entre religiosidade e comportamento suicida. Comprovou-se que a religiosidade é um importante fator de proteção contra o suicídio.
 
Além disso, foi demonstrado ainda que o comportamento impulsivo, frequentemente descrito vários quadros psicopatológicos, como o transtorno bipolar e os transtornos de personalidade, tem relação inversa com a religiosidade, ou seja, indivíduos sadios eram mais religiosos que os doentes e menos impulsivos.
 
Sugeriu-se ainda que a relação entre religiosidade, impulsividade e doença mental pode ser bidirecional, isto é, assim como a doença psiquiátrica impedir o envolvimento religioso do paciente, a religiosidade, quando presente, pode reduzir a expressão de doença mental e comportamento impulsivo, agindo efetivamente como fator protetor.
 
Importante lembrar que a espiritualidade e religiosidade benéficas podem estar associadas a práticas religiosas das mais diversas, Tanto as mais tradicionais, como aquelas com menor quantidade de adeptos.

Fonte: Vida