Impermeáveis até quando?!
Não é apenas a cidade que não resiste às chuvas. Nós, seres respiratórios também não. Impacientes e encharcados pedestres desviando de poças a cada metro ou menos, de olho nos carros-cântaros jorrando água suja com suas rodas nos declives de um asfalto de péssima qualidade. Tudo: calçada, rua, carros, guarda-chuvas e sapatos parecem remendados e feitos para não funcionar.
ilustração: Grégoire Guillemin – coleção: A Vida Secreta dos Heróis – imagem da Internet
Mesmo consciente de que o trânsito não tem hora nem lugar numa megalópole sufocada por problemas estruturais, dias de chuva perde-se a cabeça. Antes disso, a razão. Depois também. Impressionantemente, este não foi o meu caso neste dia de árvores caídas, es (postes!!) e trânsito. Dez, vinte por hora. O máximo de velocidade quando recebíamos a bênção de engatar uma marcha por alguns metros. Delicadamente e cuidadosamente, dei seta à direita para entrar numa rua para tentar andar um pouco. Dei seta. Esperei, olhei, retrovi, nada de carro. Tinha um parado, apenas com a lanterna ligada. Parado. Dez por hora, entrando devagar, meio corpo na pista quando do nada sou chacoalhada e escuto um trochnsh!. Não é possível, pensei. Não pode ser. Um anjo deve ter caído do céu, um ar condicionado lá fora, uma árvore. Olhei, retrovi, uma duas vezes. Parecia haver um carro atrás de mim. O pisca alerta dele acendeu, a porta abriu. Apoiei a testa no volante desacreditada. Não é possível, não é possível… Num istmo lembrei de todas as pessoas para quem parei o carro, compadecida com a chuva, para que pudessem atravessar segurança, sem se molhar muito. Lembrei das buzinas me impelindo a atropelá-las. Do cara da SUV que deixei passar, enconstando na guia para que seguisse sua pressa e não minasse minha paciência até então inabalada. Foi rápido, mas lembrei de tudo isso. De alguns sorrisos do pessoal de guarda-chuva, dos sinais de positivo, um até deu tchauzinho… Dez por hora. Não, não era possível que aquilo estivesse acontecendo.
Chovia. Aquela chuva constante, que molha rápido. Desci do carro a procura do estrago, não achei. outro istmo acreditei não ter acontecido nada. Mas o rapaz estava ali já. Olhando o seu para-choques, e eu procurando o estrago. Encontrei na porta do passageiro um côncavo. Como se um motoqueiro tivesse batido com o capacete na minha porta. Não cri. Olhei pro moço, já toda encharcada. “Moço, não acredito que isso aconteceu… com tanto cuidado que eu tomei, não acredito, não acredito…!”. Ele, princípio não falava nada. Ficou quieto. Acho que estava assustado porque alguma coisa errada ele deve ter feito, não deve ter prestado atenção, não viu, estava no celular… não sei. que simplesmente não era possível aquilo!
Quase nos estressamos, quase brigramos. Não houve palavrões. Não houve nada. Fiquei com pena dele, apesar dele ter dito algumas bobagens. Perguntei: você queria isso hoje? Nessa chuva? Ele: claro que não! Eu: eu também não… Alguns segundos depois ele estava me pedindo desculpas e eu a ele. Boa sorte. Tenha mais cuidado. Ninguém anda muito amigo de ninguém nesse país ultimamente. Nos abraçamos, desejamos boa sorte um para o outro. Ele deixou o telefone caso precisasse. Deixei o meu. Boa sorte para todos nós.
Fonte: Carmen Farão