JK Rowling e os Caprichos do Destino
“Talento e inteligência nunca vacinou ninguém contra os caprichos do destino”.
Palavras da autora da Saga Harry Potter para formandos de Harvard 2008. Falando para uma platéia de privilegiados sobre a pobreza romantizada pelos tolos. Diante de jovens cuja oportunidade veio do berço e não tiveram que passar pelo quase estado de homeless o qual ela estava antes do sucesso estrondoso e merecido do Bruxo que vimos crescer.
Jon Chase/Harvard Staff photographer – harvard.edu
Apesar da distância continental, costumes e cultura díspares com o lado de baixo do equador, muitas mulheres brasileiras irão se identificar com Rowling. Sozinhas com filhos para criar, desempregadas e tendo que escolher entre o pão ou o leite para o bebê. Mães que entregam a fome, roupa, frio e calor para o destino, transformando-se capa protetora visível para suas crias. Crias que tais quais os jovens para quem ela discursava jamais saberão a dificuldade que sua provedora passou, o que teve que vencer para tornar-se a maior escritora de sucesso da atualidade.
É quando Rowling nos ensina os benefícios do fracasso. A glória de vencer por seus próprios valores e meios que supera toda e qualquer miséria humana. Sair do nada para um poder que é só seu. Raro, claro. Quantas JK Rowlings temos no mundo?
Mundo? Que Mundo?
Um mundo cada vez mais amalgamado, grudado, pequeno. E se no princípio era o verbo, a gênesis do novo mundo está na linguagem digital. A ponta dos dedos é nossa nova língua que tudo alcança. E tudo afasta. O que os romances de JK Rowling têm de mais caro, é a imaginação, a criatividade, a essência do que ainda é ser humano. O sentimento de justiça, a luta do bem contra o mal. A euforia da turma unida, a raiva do arrumadinho bem aventurado. A humilhação transformando-se vitória pelo único e exclusivo exercício do bem e honestidade. Tudo que o teórico mundo moderno dos vencedores refuta. Tudo o que as pessoas mais sentem falta e querem para sí e se envergonham de assumir, porque não combina com o modus operandi coorporativo.
Muitos da minha geração se adaptaram aos tempos modernos sem deixar envelhecer os sonhos.
O sucesso profissional não é sinônimo de vitória pessoal.
Se posso deixar aqui um pouco de toda uma vida dedicada às comunicações, gostaria que permanecesse nos corações e mentes que a criatividade, a fantasia, a comoção pelo belo jamais será trocada por números série que ora querem dizer algo bom, ora nem tanto.
Precisamos da fantasia para continuarmos pessoas. Pode até ser amor, se houver. Jamais deixem uma ideia para trás, escrevam, anotem num bloquinho como fazia JK Rowling (quiçá ainda faz); digitem. Não desistam. Mundo cíclico que é, logo estaremos vivendo vilas diferenciadas, com suas próprias leis. Como a Ilha de Di Caprio. A cada dia vivido mais me convenço: a vida imita a arte. E a arte está dentro de nós, viventes.
Fonte: Carmen Farão