Meu Amigo Cláudia

Não, eu não lembrava.

Quando Ione Borges, então apresentadora do  vespertino  Programa Mulheres da TV Gazeta anuncia: Com vocês, Cláudia Wonder  aqui no Mulheres, choquei. Virei cena de filme. Um rewind  ocional tomou conta de mim. Parei o documentário e voltei a cena. Claudia Wonder, claro!  Quantas travestis, transexuais, vanguardistas e representantes de tantas outras categorias underground e corajosas tomavam conta da TV naquela época?  Todas. Pasmei. Eu estava lá. Eu a conheci. Eu a pautei. Eu a pré-entreviste. Mon Dieu de la croix, como posso esquecer certas verdades absolutas? Como não me permiti registrar esses fatos? Minha Olympus Trip 35mm era pesada, bonitona, não era boa de levar bolsa, o case era grande, eu pegava ônibus e a menor coisa possível naqueles dias cabia numa pasta tamanho A4. Complicado. Ônibus já eram lotações.

Meu Amigo Cláudia

é o nome do documentário do não-conheço-nada-sobre-vou-pesquisar  Dácio Pinheiro, de 2009. Como tantos outros espectadores  não-diferenciados desse documentário, achei curioso o título, a sinopse. Guardei para uma insônia aleatória, quando a mente estivesse aberta para absorver informações desse tipo. Arrogantemente, já imaginava o que viria, como seria, o que aconteceria… Na maioria das noites insones, preteri Meu Amigo Cláudia por uma sessão da madrugada qualquer, me me fizesse relaxar e adormecer sem tarja preta ou coisa que o valha, como sempre. Aliás, insônia é uma característica da minha geração. Somos criaturas notívagas, porque só no escuro da noite podíamos descobrir e exercer nossa vocação e potencial, experimentar nossas loucuras com a definição da vida louca vida que poderia estar por um segundo.  Minha despretenciosa e inconsciente arrogância me envergonha.

Por um Segundo?

Ainda estão. Os motivos são outros, mas tudo ainda está por um segundo mesmo. E sempre estará até o segundo acontecer. E, Poft, o Dragão Mágico vai soltar fogo pelos olhos e pelo nariz, finalmente.

Como sempre, o cinema, a história, a vida me surpreendeu. Fui e voltei muitas vezes para os anos Wonder, e me vi no Madame Satã. Fazendo parte da turma mais segura durante a descoberta do vírus HIV,  chamado de forma jocosa e ignorante na época de câncer gay.

Evervecente era uma boate de Sexo e moral explícitas

E fizemos isso. Ione Borges e eu. A Gazeta e nós todos. Gravamos no Kilt, tradicional casa noturna de  São Paulo, na Praça Roosevelt. Pela primeira vez na vida eu via cenas coreografadas de sexo explícito num palco, à centímetros da minha retina. Enquanto mulheres nuas balançavam-se trapézios sobre a cabeça dos frequentadores do bar e mesas.  Aqueles foram anos incríveis, de fato.

Boate Kilt – Nestor Pestana – São Paulo

Ken e Barbie Brincando de Casinha

Era tão Ken e Barbie brincando de casinha que se tornava impossível qualquer inspiração sexual durante a atuação. Era só pra fazer o clima. Permanecer o clima. Era tempo de liberdade, da morte ali, logo frente, na esquina. E o programa, brilhantemente apresentado por Ione Borges, iria ao ar à tarde do dia seguinte. Hoje parece mentira. Hoje, parece outro Brasil. Mas éramos inovadores, sim. Corajosos como as personas da sociedade que pululavam nas telas e nas capas dos jornais e revistas. Conteúdo social puro. E aí me orgulho de vez ou outra me sentir arrogante sem querer. que EU estava lá.

Ativista, Punk, Mulher

Marco Antônio Abrão, o Meu Amigo Cláudia, foi mais do que se possa definir entre gêneros. Ativista, fundou uma das primeiras ONGS São Paulo para acolher soropositivos, numa década que nada se sabia, nada se fazia, nada acontecia, e os velórios dos amigos eram semanais. A incerteza da continuidade da vida coincidente com a abertura política brasileira, o descortinamento de uma sociedade mantida por baixo do pano, a vontade de viver intensamente, cobrou um preço injusto, (a)moral para os quixotescos crentes daqueles transloucados anos.

 

No dia da morte de Tancredo Neves,passeata pela diversidade frente ao HC

Loucura, Loucura, Locura!

No dia que Tancredo Neves morreu no Hospital das Clínicas São Paulo, eu estava a poucos metros dali. Frequentava um bar de jornalistas na Melo Alves, do lado da minha casa. Passávamos madrugadas inteiras acompanhando a movimentação das luzes e links ao vivo das issoras de TV. Nem fazíamos ideia que a história estava também a poucos metros da gente. Ouvimos o anúncio da morte pelo rádio do bar. Eu mais um ou dois amigos queríamos ir até lá, era só subir a rampa. Algum preguiçoso nos convenceu que estávamos de camarote, melhor ver de longe, privilégio de poucos. Só soube através do Meu Amigo Cláudia, que Claudia Wonder havia organizado uma passeata pela saúde do presidente e pró diversidade sexual, pela ajuda aos soropositivos e que ninguém deu bola pra passeata. O presidente civil há anos havia sido eleito e não assumiria. Diante dessa latinidade dramática, nem tchum pras bee.

E eu, a poucos metros de La Wonder, da passeata, da cobertura ao vivo da morte de Tancredo Neves, vendo tudo de camarote, quando poderia estar do mesmo lado da rua. Mas, estava na mesma egrégroa. Tudo fluía.

Ninguém que viveu aqueles anos jamais será careta, jamais terá uma visão retrógrada da vida

Claudia Wonder. Foto de Moisés Pazzianotto. Fonte: www.oidiotafeliz,blogspot.com.br

Criativos, modernos e descolados, sempre. Vemos a vida na frente,  porque tivemos Cláudias Wonders, pudemos conversar sobre sexo, discutir nosso futuro e conhecer o passado que nos fez chegar até aqui. Vale a pena assistir Meu Amigo Cláudia. O clima anos 80-90 está todo ali. Na performance no Madame Satã, outra casa famosa das noites alternativas paulistanas, de Claudia tomava banho de sangue nua, numa banheira, plena descoberta da AIDS.

Claudia Wonder na banheira de sangue no Madame Satã

Coragem era a palavra de ordem. Sobreviver e amar era a regra.

PORQUE O MUNDO, APESAR DE SER REDONDO, TEM MUITAS ESQUINAS

(Caio Fernando Abreu, autor da crônica Meu Amigo Cláudia, publicada no Estado de São Paulo no final dos 80)

 

 

Fonte: Carmen Farão