Não olhe agora, mas tem uma babá criando seu filho

Na ciclovia, à tarde no feriado, lá vem uma mulher pedalando sua bicicleta, tudo bem, tudo normal, não fosse a bicicleta que vinha logo atrás dela, pilotada por outra mulher, esta vestida toda de branco, negra, e se equilibrando para pedalar a si mesma e ao bebê filho da moça da primeira bike.

Ou seja: vou passear com meu filho, mas a babá que o leve. E, se cair, ainda lhe desconto todos os danos, físicos, morais, ocionais, o catzo, porque a responsabilidade é sua, sem debate.

Daí hoje pinga no Facebook um com a história da outra moça de branco, também babá, também negra, e que precisou guardar lugar pro patrão por horas na fila do restaurante Ipanema, pra, só depois de liberada a mesa, ser autorizada a voltar pra casa, às ze da noite, a pé, sozinha.

Que lindo, Brasil. Delegar a parte chata da vida aos cuidados dos outros. Que fácil que fica.

Menino fez cocô? Deixa que ela troca. Pituca quer comer? Manda que ela esquenta. Filhinho quer brincar, tem que estudar, quer ganhar carinho? Chama a babá que a babá dá. A babá faz. A babá vai. A babá tá aí pra isso.

Só que a gente sabe que não tá, né, que a ideia era outra. Era pra ser alguém que ajudasse nos perrengues que todo mundo sabe que rolam na hora de se criar um filho, ou dois, ou quantos sejam. A babá nasceu e ganhou trabalho pra ser o braço direito dos pais numa hora que eles ou não estivessem, ou não pudessem, ou precisassem.

Não sei quando foi exatamente que a descrição do prego mudou, e de babá a babá passou a professora, e a faxineira, e a enfermeira, e, mais que tudo, a babá passou a mãe e passou a pai. Ganhou mais uns filhos, além dos que já tem casa, com toda a dor e a delícia que a maternidade envolve, só que, né, toma que este filho aqui é seu, dos meus deixa que eu cuido.

É um trampo lindo, brilhante, necessário. Eu mesma, se pudesse, tinha pedido socorro às babás amadas sempre que o negócio apertava lá casa e virava tarefa hercúlea conciliar a vida de mãe sozinha, funcionária, mulher. Se não recrutei ninguém nestes momentos, foi só mesmo porque faltava a grana, nada além.

Meu grilo é com quem, como a moça da bicicleta na ciclovia, e o patrão do restaurante Ipanema, extrapola uma atribuição pelo simples fato de que pode, e não de que precisa.

Pai e mãe que só pegam a criança no colo na hora de tirar fotografia. Ou de aparecer na frente dos amigos, na festinha da escola, sempre que importam as aparências. No resto do tempo, segura aqui que eu vou lá viver minha vida.

Mas e a vida do seu filho, queridos?

Alguém ajuda a lembrar estes pais de que, depois duma certa idade, a cabeça da criança já está formada relação ao afeto, e o que você conseguiu fazer, boa, o que não fez, já era. É com esta base de estima que os filhos crescem e constroem seus relacionamentos de amizade e amor ao longo de toda a vida, sendo capazes de dar apenas aquilo que recebem.

Não que as babás, deusas, não sejam capazes de amar nossos filhos profundamente. Pelo contrário, elas dão conta dos nossos, dos delas, dos que mais chegarem, e muitas vezes, como na ciclovia e tantos outros lugares que vemos todos os dias, com ainda mais intensidade do que os próprios pais das crianças.

O ponto é que criança precisa de amor e aconchego de quem ela sabe que está lá disponível, mas que não dá carinho porque não tá a fim, porque tá sem tempo, porque vai sujar a roupa, exigir tempo, cansar os braços. Criança precisa ver que é amada através de pequenos gestos do cotidiano, como ser alimentada, limpa, educada. Dá trabalho, mas é assim que deve ser.

Passou da hora de se criar duas coisas nessa vida: vergonha na cara, e o filho que vocês botaram no mundo.

O Não olhe agora, mas tem uma babá criando seu filho Blog Bonitinha, mas Ordinária.

Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária