Para quando eu me for

Acabou. Ou ao menos é assim que você está sentindo as coisas agora. Como se tudo tivesse deixado de existir. Só que, na verdade, pouca coisa mudou. Talvez leve algum tempo até você perceber isso, e nesse processo pode ser que você sofra um pouco.

Mentira. Você vai sofrer bastante. Talvez você se desespere, justamente por pensar que nada mais será como antes – e eu gostaria apenas que você soubesse que, bora pareça um grande pesadelo, depois que a dor baixar tudo vai voltar ao normal.

Você ainda vai se lembrar de quando era pequeno, e eu cuidava de você sozinha. Vai rir quando pensar no dia que dançamos juntos no banheiro, você tinha seis anos, eu, trinta e tantos. Vai pensar que mesmo as coisas mais simples que fazíamos juntos, como sentar no sofá para ver um filme e comer pipoca, eram, elas, sim, a representação física da felicidade. E, sempre que se sentir pra baixo, quando a vida te der mais rasteiras como esta de agora, vai recorrer àquele sentimento para ganhar força e seguir frente.

Pouco mudou.

Você ainda vai sentir raiva quando pensar no tanto que eu te cobrei. No quanto fui dura com você na infância, adolescência, vida adulta. Nas infinitas e desnecessárias vezes que eu te mandei tomar cuidado, prestar atenção, se tratar direito. Ou quando eu te disse, de maneira injusta, que você não dava valor às coisas que tinha, ou ao meu esforço para te dar o que havia de melhor no mundo.

Perdão.

Se eu errei – e sei que errei bastante -, foi sempre querendo fazer o certo. Agora que você é adulto, entende que, dentro da gente, moram coisas que muitas vezes não conseguimos disfarçar. Que mãe é humana. E que, porque somos gente e não máquinas de cuidar, tem dias que o mundo parece difícil de suportar e a gente só quer deitar, fechar os olhos e esquecer.

Talvez você esteja se sentindo assim hoje. E eu sinto muito por isso.

Tente se lembrar de que seguiremos juntos sempre, mesmo que agora a distância tenha aumentado um pouco. Posso não estar mais no quarto ao lado, ou tomando banho enquanto você brinca na sala enfileirando carrinhos. Mas isso não quer dizer que não continuo atenta aos seus passos, te pajear pra não deixar cair, bater a cabeça, fazer besteira. Sigo ligada, vigilante, preocupada.

E também sigo orgulhosa, importante que você saiba, para que nunca se esqueça de que, se houve algo de que me envaideci nessa vida que tive foi da chance de ser sua mãe. Obrigada por isto.

Quando sentir minha falta, olhe as fotografias. Escute o som da minha voz nas gravações que ficaram. É através de você que eu continuo. Nas nossas semelhanças físicas, no sorriso idêntico. Quando parecer insuportável a saudade, converse comigo. Posso não responder com palavras, mas seu coração vai me escutar e sentir minha presença.

Estou te esperando para nosso reencontro. Só, por favor, demore bastante. que o maior desejo de uma mãe é que seu filho viva por muito tempo, e que consiga a sorte de ser feliz. Estou torcendo por você.

Amor,

Eu

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Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária