Quantos Links Você Tem?
A Década era 80.
Mais precisamente, do meio para o final. Links – transmissões ao vivo como eram e ainda são chamadas – custavam muito caro às emissoras e nem todas se dispunham à criar quadros para entretenimento ou prestação de serviços. O jornalismo detinha toda a prioridade sobre o equipamento e editoria. Não era raro uma ideia de link surgida em reunião de de programa ser transformada em pauta jornalística. E link jornalístico. Com sua linguagem jornalística. O tempo necessário para o inédito e informação imediata, ao vivo.
Em 1986 a TV Gazeta de São Paulo transbordava criatividade e dificuldades. Talvez por isso tamanha criatividade. Era o tempo do icônico “TV Mix”, de de saíram Serginho Groissman e Astrid Fontenelle, citando apenas alguns. Programas eram dirigidos por Fernando Meirelles Muitos programas e apresentadores consolidados foram gerados naqueles anos. Como essa temporada de grande sucesso tem muitos pais, mães e controvérsias, não vou me aprofundar. Embora lembre e muito bem de toda a rotina dos estúdios montados entre as janelas da enorme redação do sétimo andar da Paulista 900, muitos outros detém informações precisas, experiências próximas, intensas e pesquisadas.
Claudete Troiano e Ione Borges
Eu era Produtora do Programa Mulheres em Desfile, apresentado por Ione Borges e Claudete Troiano, as “parceirinhas”. Outro apelido carinhoso dado por Chacrinha, “as fadinhas ta televisão brasileira”, não colou. Ficou para a história. Rolava uma colaboração entre o núcleo “TV Mix” e o Mulheres em Desfile, programa que resistiu e resiste até hoje bravamente às mudanças criativas. Participei de muitas delas. Quase todas. Mas isso é outra história. Vamos falar do links.
Começamos visitando ao vivo casa de artistas
Cada pauteiro era responsável pelos seus convidados, roteiro, produção. Cabia à secretária de produção a parte burocrática. Todo o era gerado pelo produtor/pauteiro. Pré-entrevistas, briefing (resumo e informações da história) para as apresentadoras, assuntos inéditos. Conheci e fiz amizade com muitos artistas e personalidades que abriam as portas de suas casas sem medo algum. Serviam um café, cantavam uma canção, ouviam sua música preferida com as apresentadoras. Abriam suas lojas, faziam desfiles. Era uma delícia. Nos revesávamos nas visitas. Assim como as apresentadoras. Cada link, uma ia enquanto a outra dividia o estúdio. Tempos iguais para o link e estúdio. Regina Duarte, Sérgio Reis até Jorge Amado e Zélia Gatai nos receberam no jardim do Macksoud Plaza de estavam hospedados em São Paulo. Aliás, dona Zélia foi até o fim uma colaboradora generosa do programa, entrando ao vivo por telefone quando solicitada para opinar sobre este o aquele assunto.
Tudo inédito e na raça.
Quando sentimos que precisávamos ser menos glamourosos e mais sociais, passamos a mostrar como eram por dentro instituições, prisões e abrigos de minorias. Mostramos para as mães ao vivo como era a então FEBEM por dentro. Como viviam os índios numa casa-abrigo no centro de São Paulo. Nos tempos de festa, os links eram nos shopping-centers mais frequentados. Pouquíssimos na época. Tudo inédito tanto para os visitados quanto para nós. Na raça. A equipe técnica tinha que checar se o ‘link fechava” com alguns dis de antecedência. “Fechar link” significava achar um local para nosso caminhão-furgão sobre o qual ficava uma antena e esta antena tinha que se direcionada à da Avenida Paulista. Ou seja, a antena da Paulista tinha que ser visualizada do local da transmissão. Caso não fosse, o link teria que ser em dois lances, algo como rebater o sinal. Aí entrava outras batalhas: convencer o vizinho a deixar que instalássemos nossos equipamentos, que usássemos sua energia, que pisássemos na sua grama e destruíssemos seu jardim. Cabos grossos tinham limite de alcance também. A câmera só ia até a extensão de seu cabo permitisse. O mesmo para a iluminação em locais internos. Profissionais heroicos se dependuravam em es de luz, em lajes de casa, coberturas de prédios… uma aventura.
Ione Borges e Claudete Troiano suportavam calores inimagináveis sobre os holofotes quentes muitas vezes instalados em ambientes minúsculos e de pouca ventilação, como o abrigo indígena. Foram feras.
Ao Vivo, de uma Rua do Seu Bairro
Ao vivo, direto do Anhembi nas festas-show de aniversário (incríveis, um capítulo à parte) com mais de 5 mil pessoas na platéia que acampavam dias antes em busca de melhores lugares e rendiam matérias deliciosas na fila.
Ao vivo e pulsando
Hoje, quando nos transmitimos cortando o cabelo ao vivo do celular, não dá pra lembrar sem imenso carinho do sapato fone do agente 86. E do quanto foi feito para chegar até aqui. E como tudo é cíclico. É de ficar perplexa.
Fonte: Carmen Farão