Reféns
As referências de Dona Áurea a precedem. Cozinheira mineira, dezoito anos no comando de forno e fogão duma família tradicional das gerais, muito honesta muito discreta, em busca de oportunidade na zona sul de São Paulo. Cristiana recortou o quadradinho do jornal e, do trabalho, telefona para o número indicado no anúncio. Encontro agendado, do outro lado uma voz grave de cantora de blues, e era como se a patroa já pudesse pressentir uma fraçãozinha do vulto de Dona Áurea. Sou pouca bosta não, entoa a cozinheira no final da entrevista, e aquela grosseria gratuita serviu pra Cristiana começar a cair de amores pela nova funcionária.
Começar, só, porque a paixão definitiva vem com o tempo, devagarinho, enquanto a família da arquiteta prova cada quitute, cada tempero, e o amor cumprindo seu papel até que a dependência se torna completa. Cristiana, marido e filhos já não podiam mais viver sem Áurea, afetiva e fisicamente dominados que estavam pelo escondidinho com purê, a bisteca suculenta, a couve refogadinha no alho, a sustância do tutu, o arroz soltinho. Viciados, doutrinados e de quatro pelos pratos da mineira muito honesta muito discreta e que, ô anúncio certeiro, era tudo aquilo de que a família já tinha ouvido falar.
É tanto mimo e paparico que Cristiana, ela mesma prendada e capaz, se põe a desconfiar: esta mulher há de ter algum defeito. Em segredo passa a fiscalizar o trabalho de Áurea contando salsichas no refrigerador, medindo o tamanho dos queijos e avaliando as garrafas de vinho caro que o marido guarda no armário alto da sala. Se me rouba mando pra rua! E a gorda mineira fazendo jus a toda aquela notória honestidade, se alimentando apenas do que a arquiteta acredita ser justo, restringindo seus domínios ao quartinho na área de serviço.
Mas a intuição de Cristiana não falha, e é numa noite em que tudo parece rotina que, ao lavar a louça, aparece o deslize. Engordurados, xícaras e copos!
O crime, no entanto, soou a Cristiana como uma ameaça – se Áurea descobre que sei, pede demissão na hora, coerente em toda sua correção e humildade. E, se Áurea se demite, saímos perdendo nós, órfãos todos da couve refogada e da bisteca gordurenta.
A única solução, entende a arquiteta, é montar vigília da louça da outra, refazendo o trabalho doméstico na surdina, enquanto a casa dorme. Dia após dia, no escuro e em silêncio, a esponja encharcada de sabão da patroa encobre a empregada, ciente da responsabilidade de louvar o talento e a santidade da cozinheira mineira.
O Reféns em Blog Bonitinha, mas Ordinária.
Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária