Soterrada segurando minha pelúcia
Homem às vezes me dá preguiça. E por “às vezes” eu quero dizer o tempo todo.
Deve ser porque estou velha. Daí a gente, por conta de tudo que já viveu, vai ficando mais resistente aos truques capengas que os caras tentam aplicar nos seus números de mágica que têm conosco, e que eles chamam de relacionamentos. Uma ova. Tá mais para número de desaparecimento ou giro chinês de pratinho de louça, isso, sim.
Não tenho mais saco de ir prum bar paquerar. De conhecer alguém incrível duas mesas pro lado, de mandar meu número pelo garçom num guardanapo, de passar a madrugada toda na casa de alguém que nunca vi e que guarda tupperware com coisas bizarras e verdes dentro da geladeira.
Nunca tive – e agora tenho ainda menos – tolerância para conquistas virtuais.
Minha lista de solicitações de amizade é maior que minha lista de amigos aceitos – e a desproporção só tende a aumentar.
O último que me cutucou no Facebook virou meme, depois que dei um print e o viralizei.
Tinder?
Ah, me respeitem.
Inventem um aplicativo que eu possa ver os livros que esse cara leu, o jeito que ele trata a mãe, e se ele é ou não assinante da Veja. É baseada nisso que eu escolho se quero ou não dar pra ele, e não na foto que ele escolheu pra se vender pro mercado – photoshopada, uma hora e meia frente ao espelho, três filtros, roupa prestada do amigo.
E, justamente por ser inflexível, exigente e incontentável, sei que morrerei sozinha. Talvez bem velha, amarga, careca, talvez amanhã mesmo, afogada rancor e fel, caída no box e comida pela gata faminta sem quem lhe dê o Whyskas matinal.
Eu queria sabe o quê? Queria tipo aquilo lá daquela famosa foto linda, do casal soterrado que morreu abraçado, se protegendo do mundo. Exatamente isso: proteção.
Entender que aquele relacionamento, aquele que eu escolhi pra mim, é como uma bolha, um bunker, um consolo meio a um mundo que está rapidamente virando algo abominável e arrepiante. Mas isso, convenhamos, não existe mais. Nicete Bruno e Paulo Goulart foram os últimos exemplares desta linhagem, e então a espécie se extinguiu.
Eu, Marcella Franco, estou fadada ao fracasso. À solidão e ao fracasso. E, ao contrário do casal de Bangladesh, serei condenada a morrer também soterrada, porém segurando minha coruja de pelúcia. Ou, no máximo, no máximo, abraçada ao meu vibrador rosa importado.
O Soterrada segurando minha pelúcia Blog Bonitinha, mas Ordinária.
Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária