Talvez lhe Ajude
Eu fui uma adolescente baranga.
Um horrorzinho andando pelas ruas de Pinheiros. É claro pra mim que a timidez me levava para a clausura a cada elogio que recebia. Me enfeiava para não chamar atenção. Não que eu fosse uma beldade, mas também não era de passar despercebida. Então os seios chegaram. Chegaram derrubando tudo. Tenho uma foto 3×4 perdida entre álbuns. Inacreditável.
Seios de misses. Mísseis
Vis a Vis
Até os doze anos, eu me amava. A mini saia cinza do Colégio Estadual fazia sucesso e eu só queria brincar. Dançava no recreio O Vira do Secos e Molhados, que turma esperávamos que tocasse no radinho de pilha de alguém. Jogava handball de shortinho curto e meus cabelos eram na cintura. Começou depois dos doze anos, quando meus seios resolveram apontar para o polo norte de uma só vez, crescendo de forma desproporcional ao resto do corpo, que ainda estava desenvolvendo. Eles chegaram que todo o resto. E durante um bom tempo, a sombra dos mamões assassinos surgia no chão antes que o resto da silhueta se formasse. Aprendi que encolhendo os ombros eles pareciam menores. E roupas largas também ajudavam a esconder o morro dois irmãos. A indústria cosmética class media brasileira nos 70 limitava-se ao Óleo Johnson e Neutrox. Não havia maquiagem para pré-adolescentes. Só brinquedos (?!!). Nem roupas que não fossem infantís demais. Não existíamos para o mercado.
Não Existe Patinho Feio. O coitado é pobre mesmo.
Eu fui baranga, mal ajambrada, floresci, cresci e estou boa (prefere estou bem?) como nunca agora aos 50. E como na minha adolescência, não existe mercado para minha geração. Olha que coisa?
Jovem, tórrida, cheia de vivência, experiência e produtividade no ápice. Quando o mercado acordar, quando as presas acordarem, talvez a próxima geração dos 50 não esteja mais nem aí, a não ser com a tecnologia. Pode reclamar, pode bufar, pode parar de ler se quiser, ma eu INSISTO e INSISTIREI sempre: essa geração, a minha, é diferente. É a única analógica, digital, libertária, careta, hippie, hipster, new age, punk, rock, reggae, pop, tudo. Nenhuma outra mais poderá ser, infelizmente. Nenhuma outra aproveitou a liberdade sexual pré-DST, a liberdade de ir e vir antes do terrorismo indiscriminado e insano contra civís, nenhuma outra andou à noite pelas ruas das grandes cidades sem medo. Nossos (!) bandidos quase pediam por favor para assaltar a carteira. Eram odiáveis como sempre serão, mas não existia matar por matar. Era inconcebível para os mais radicais religiosos ou não usar crianças ataques genocidas. pouco tempo, porque tudo isso também começou nos 70…
Batons rosa, ou vermelhos não combinavam absolutamente com as camisetas Qual é o Grilo e 80 Ação,
modinha da Hering para nossa faixa etária feita para os mais velhos. Para disciplinar os cabelos, óleo. Isso depois de uma camada a olho nú de Neutrox após o banho. Não havia condicionador disponível na casa do Seu Farão, um bancário esforçado que formou 3 filhos e que optava por deixar o supérfluo de lado, com o auxílio luxuoso de Dona Ivone, sua fiel companheira até o último dia. Para esconder meus lindos cílios, convenci minha mãe que precisava de óculos. E escolhi uns de armação de metal enorme, com lente fotocromática, que escurecia ao sol. Como era novidade, ela demorava para escurecer e demorava para desescurecer. Ou seja, eu ficava mais ou menos dentro e fora. Imagine a cena. Não esqueça de incluir o cabelo, o óleo, o Neutrox. Um monstrinho. Não durou muito. Uns dois anos. Simplesmente a fase mais importante de uma menina nos libertários anos 70, definindo importâncias e comportamentos fundamentais que iriam até os dezoito, vinte.
Claro que ia nas baladinhas, bailinhos, festinhas…
…mas não acreditava na intenção do garoto que me chamava pra dançar. A sensação de que a sacanagem com a Carrie (Carrie, a Estranha – 1976) poderia acontecer comigo, fazia com que eu desviasse o rosto e, nops! Beijinho, não. Claro que o garoto desistia, e assim sucessivamente até não sobrar ninguém disposto a investir numa diversãozinha inocente comigo. Sempre fiz muitos amigos, alguns caros até hoje, desde aquela época. Rimos muito das fotos e lembranças daquilo tudo. Era divertido, anyway. Nunca fiquei sozinha, nunca fui triste. Nunca fiquei triste com meus mamões, ou com meu cabelo que já era disciplinado, mas eu insistia grudar na cabeça.
O Negócio era Tostador Solar. Torrar ao sol.
E eu lia, heim? Como eu lia. Um livro a cada dois ou três dias, dependendo da quantidade de páginas. Chorei cântaros com O Meu Pé de Laranja Lima e o resto de líquido do meu corpo se foi ao terminar Os Meninos da Rua Paulo. Nas férias na casa de meu tio advogado, roubava Gabriela Cravo e Canela da biblioteca dele e lia com os olhos arregalados, encantada com aquela forma de narrativa, com aquelas personagens. Meu primo me dedurou. Minha tia disse que não era leitura pra mim. Eu li até o fim. Li quase tudo de Jorge Amado, todos de Monteiro Lobato, todos de Agatha Crhistie – esses na praia, enquanto tomava sol. O Caso dos Dez Negrinhos me levou pro pronto socorro de Suarão. Insolação. Não percebi o tempo que fiquei ao sol com o mesmo óleo do cabelo no corpo. Protetor solar não existia. O negócio era tostador solar. Comecei a colecionar selos ao ver envelopes vindos da Suíça na casa de uma amiga da escola aos dez anos. Eu achei lindo e ela me deu. Era da mãe dela, separada do pai que morava na Europa. Guardava porque achava lindo. Decidi que iria viajar por toda a minha vida. Hoje, senhores, minha coleção é respeitável. De selos, não de carimbos no passaporte.
Paixão, pra funcionar, tem que ser correspondida.
E fui. Lá pelos quinze, me apaixonei e fui correspondida. Passei a usar camiseta regata, roupas mais justas, deixei meu cabelo naturalmente paz. Era assim que a gente se gostava. E gostava muito. Eu tinha certeza de que era o amor para o resto da minha vida. Mas ainda era cedo para que nossos pais pudessem compreender a força dessa relação e o seu significado. Elia Kazan e seu Clamor do Sexo de 1961 explicam bem o que as regras sociais faziam com os jovens de boa família. Natalie Wood, tadinha, enlouqueceu. Sempre sobrava e ainda sobra pra mulher. E nossa paixão foi cedendo, minguando, torando-se imagem e semelhança de uma família normal. Quando passamos a repetir os presentes de Natal e aniversário, também paramos de nos ver com frequência. Engraçado que não terminamos. Terminou, apenas. Era como se algo lá no fundo não quisesse que aquela coisa bonita e diferente deixasse de existir.
Ah, infinito delírio chamado desejo…
Warren Beatty e Natalie Wood Clamor do Sexo – 1961
Com meu amor aprendi sobre psicologia, Gestalt terapia, canções do Brasil popular, encanterias. Já tocava violão há tempos, e tudo era deliciosamente lindo. Mãns, como declarado acima, e sem novidade para ninguém, aconteceu. Só sei que foi assim. Uma história sem fim que acabou.
Paixão por Cultura
Quando então com 17 anos entrei na Faculdade de Comunicação, a maioria das minhas gavetinhas mentais estavam repletas de informações. Queria fazer cinema, teatro. Naquela época era preciso ser libertária, desapegada e muito corajosa para viver de cinema ou teatro. Meu pai e seus olhos doces só queriam minha felicidade, de quer que eu a levasse, pelo caminho que fosse. Mas não tive coragem de fazer isso com ele, que pagou todos os meses, durante quatro anos, uma das faculdades mais caras do país a base de préstimos e bicos cá e acolá do mesmo modo, formou um filho dentista. E fiz Rádio e TV, que me surpreendeu. Gente de cinema, teatro e TV dos primórdios, pioneiros, me ensinaram muito!
Preservar essa história é nossa obrigação. Acho que pra isso existimos. Lamentar por aqueles que não respeitam essa condição é cotidiano.
Tenho alguns amigos bem moleques, adoro! Um especial, 19 anos, é um cara fantástico! Esses amigos que me levam e me renovam sempre me enchem de esperança! Me ensinam, e antes de respeitar aos outros, se respeitam. Minha tribo não tem idade. E se insisto nisso é porque considero de vital importância para quem se importa em viver, construir. Para quem acredita no aqui e agora e no tal do vil metal para aproveitar, boa sorte. Não deixa de ser uma escolha. Liberdade antes de tudo.
Olha, talvez isso tudo ajude. A vitimização não é boa coisa pra se viver. Dou risada de mim mesma. Procure, se possível, não viver desconfiando que alguém vá lhe fazer mal, muito menos tramando formas de vingança ou devolver na mesma moeda. Isso não faz bem. Fui barangaça , com a cabeça cheia de grilos, fui a última a beijar na minha turma, achava que ninguém ia querer namorar comigo, e ainda assim tive amigos e dei muita risada. Ainda sou, de vez quando, uma baranga. Tenho fotos hilárias!
Baranga está mais para estado de espírito, não condição física imexível. Dividindo pra multiplicar.
Fonte: Carmen Farão