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Até que não é tão ruim dirigir a 50 km/h na Marginal

Tava lá no sofá sem fazer nada, segundona à noite, jornal na TV e pensei: vou dar um rolê na Marginal né, por que não? Passar o tempo, experimentar essa parada de novos limites, radares, multas, oção.

Fui direto pra Tietê, de agora na pista local só dá pra chegar a 50 km/h. Mais ou menos a velocidade que tinha, deixa ver, a Montanha Encantada do Playcenter. Ou aquele carrinho de compras motorizado do supermercado lá perto de casa.

Achei bacana, viu.

A cinquenta por hora, descobri um novo estilo de vida. Algo na linha contemplativa, de observação do cotidiano. Um viver assim mais relaxado.

Ao invés de me estressar e lutar contra, me entreguei ao prazer da locomoção moderada.

Percebi que, me arrastando pela pista, dá pra fazer mais um montão de coisa junto com a direção. Tipo espiar dentro da casa das pessoas. Devagarinho desse jeito, a gente vê tudo que se passa cada apartamento da Marginal.

De prima, já vi uma família inteirinha sentada pra jantar, comendo cuscuz marroquino com passas, frango assado no molho acompanhado de salada de aipo. Parecia gostoso, as crianças riam, o som tocava Sinatra.

No prédio do lado, uma moça sozinha lia Paulo Coelho, sublinhando aquele parágrafo que fala da pedra filosofal e da importância de confiar si mesma. Quando me viu passar, acenou e batemos os punhos pelas janelas, exclamando “força, miga”, antes de nos despedir devagarinho.

No segundo quilômetro, isso uns 40 minutos depois de começar minha jornada, lembrei que no porta-luvas tinha uma revistinha de palavras-cruzadas que adoro. Aproveitei para completar aquela de faltava o nome do deus grego do sono, algo que eu não sentia fazia tempo, pelo menos não antes de decidir pegar o carro e vir aqui dirigir na Marginal.

Pronto. Acabou Picolé nível Médio Letrão inteiro.

Acho que vou ligar pra minha mãe. Dar um oi, saber das coisas. Sim, eu sei que não pode dirigir e usar o celular ao mesmo tempo, mas, convenhamos, isso aqui não se parece muito com direção. Alô? Quanto tempo, que saudade. Me ajuda a passar o tempo, manhê, que o negócio tá complicado.

Depois de me atualizar sobre todas as tias de Laranjal, o que cada uma tem feito, quem morreu, quem desquitou, a bateria acabou e precisei desligar. Droga. O que é que eu faço agora?

Ainda faltam três quilômetros até o meu destino, algo torno de sete horas e meia de itinerário.

Ahhhh, olha lá que legal, agora pelo menos dá pra ler as letrinhas miúdas dos anúncios no outdoor. Quer dizer então que este medicamento também não deve ser utilizado casos de suspeita de dengue? E que iogurte grego pode dar dor de barriga, mas o fabricante não tem nada a ver com isso?

O motoboy do meu lado buzinou. O que foi que eu fiz agora? Ninguém consegue fechar ninguém a cinquenta por hora, moço, me deixa. O quê? Você tá carente? Poxa, não fica assim. Sua namorada brigou com você e agora você não sabe o que fazer da vida? Ô, dó. Dá aqui a mão. Quer um abraço? Não, nem precisamos estacionar, relaxa, continua acelerando de boa, até porque nessa velocidade a gente já tá quase parado mesmo.

Vai com Deus, motoqueiro. Se cuida. Dá notícias. Já tá amanhecendo e finalmente cheguei ao meu destino.

Em resumo, achei a viagem de boa, foram só 14 horas e 6 minutos de ponta a ponta, da Ponte dos Remédios até o Imigrante Nordestino. Fiz amigos, completei a revistinha, tive notícias da família e me apeguei ao motoqueiro. É bastante coisa, e vou levar isso pra vida.

Estivesse eu a 70 km/h, como antigamente, nada disso seria possível. Eu até chegaria mais rápido, claro, mas de que vale a velocidade perto dum passeio assim tão profícuo? Não tem nem comparação.

Hora do caminho de volta. Revivo o lirismo marginal, ou opto pela agilidade das ruazinhas do bairro?

Resposta óbvia. Até porque, cortando por dentro a milhão e sem radar, chego rapidinho casa de volta, a tempo de ainda assistir à edição do jornal da noite desta terça-feira.

O Até que não é tão ruim dirigir a 50 km/h na Marginal Blog Bonitinha, mas Ordinária.

Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária

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