Entrei casa e cinco jogavam videogame na sala. Saí na rua e eram muitos caminhando pelas calçadas, passeando de bicicleta, ao volante dos carros, falando ao celular, na parada do ônibus, de mãos dadas com suas companheiras. Cheguei ao trabalho e lá estavam todos, compenetrados suas tarefas. Abri a porta e, no sofá, um deles esperava por mim.
Não se trata de um filme do tipo A Invasão dos Vampiros ou Os Zumbis Atacam. Esta é a vida real, território amplamente conquistado e dominado por eles, os barbudos. King Camp Gillete, o inventor da lâmina de barbear que leva o seu nome, morreria de fome nesses tempos peludos. Já os barbeiros e salões especializados estão com a agenda cheia. Os barbudos modernos descobriram que não basta deixar a barba crescer ao estilo Capitão Caverna: é preciso cuidar bem dela.

Não basta ser barbudo: tem que cuidar
Depois de amargar o ostracismo nos escanhoados anos 1980 e de ensaiar uma reação nos 1990, a barba voltou – ou nasceu – para não sair mais dos rostos masculinos. Os mais jovens não imaginam o quão difícil era ver um homem (dito sério) de barba há algumas décadas. Que eu lembre, meu pai não tinha sequer um amigo barbudo. Em toda a minha família, só o tio Aldo, que tinha uma banda, usava barba. Os roqueiros, claro, não estavam nem aí para o código de boa aparência então vigente e sacudiam suas barbas suadas na cara da sociedade.
Não faz muito, a barba estava confinada a ambientes específicos e tinha limite de idade. Na faculdade, quem podia, usava – sendo esse “podia” condicionado mais a questões hormonais que sociais. Só que, então, uma coisa curiosa acontecia. Tão logo se formava, talvez como parte da transição para a vida adulta, o rapaz raspava a barba. Bater ponto um escritório não combinava com ela.

No tempo que os homens faziam a barba
Hoje são poucas as atividades que não se encontram homens de barba. Nos restaurantes mais tradicionais, os garçons não usam. Nos hospitais, pelo que observei, eles são poucos – ambos os casos explicados pela necessidade de uma higiene bem acima da média. Será que existe um meritíssimo barbudo? De resto, até de eu sei, a barba é livre. Havendo testosterona suficiente, todos podem ostentar uma. Inclusive algumas mulheres, mas aí quem comemora são as depiladoras.
Acompanhei a ansiedade do meu filho e seus amigos por uma barba fechada. Quase todos chegaram lá e mesmo os que não viraram o Tom Hanks no Náufrago não raspam os tênues pelos que conseguiram. Não sei se influencia, mas várias pesquisas de comportamento apontam que 73% das mulheres preferem homens barbudos. E também entre casais gays a preferência é por parceiros com barba. Além da questão da moda, do se espelhar nos ídolos e do gosto puro e simples, tem mais isso: o pessoal anda à procura de um barbudo para chamar de seu. Pelo jeito, a era da barba ainda vai longe.

O sonho da barba própria
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A respeito do texto sobre turismo nas favelas, e-mail da antropologa Anelise Fróes: “Lendo sua coluna (…) deparei-me com a desinformação a respeito da Unidade de Polícia Pacificadora do Morro do Vidigal, na zona sul do Rio de Janeiro. (…) Escrevo por muitos motivos, mas ao concluir a leitura do seu texto percebo que qualquer argumentação seria infrutífera, já que o mesmo está tomado de clichês e preconceitos sul-riograndenses acerca do Rio de Janeiro e suas múltiplas realidades. Como antropologa que atuou por três anos na SEASDH #8211; RJ no Programa de Gestão Social Territórios Pacificados, como profissional que coordenou este Programa para as áreas norte-sul, responsável pela área do Complexo do Alemão até o Morro da Providência, e sobretudo como alguém que participou da INAUGURAÇÃO da UPP Vidigal, junto à SESEG, CPP e SEASDH, tomo a liberdade de corrigir seu desconhecimento, informando que a UPP Vidigal foi inaugurada 12 de janeiro de 2012, e aproveito a oportunidade para ressaltar que, exceto dados sigilosos de Segurança Pública, todas as demais informações sobre o processo de pacificação são públicos e encontram-se disponíveis. (…)”. Embora eu não concorde com o teor preconceituoso apontado pela Anelise, fica o registro.
O Claudia Tajes: Barbudos no poder Donna.
Fonte: Donna

