Quando todos essas caras bacanudos e diferentões ferviam na concorridíssima TV de somente 6 canais, as únicas lembranças que – nós que trabalhávamos tanto nos bastidores – conseguíamos vigiar vinham de uma profissão já extinta. Fotógrafos profissionais com suas câmeras maravilhosas eram autorizados a fotografar programas de auditório. Viviam de vender essas fotos para artistas, produtores, técnicos e platéia. Alguns eram figuras carimbadas e tão famosos quanto os programas.

Imagens Internet
Se Rihanna existisse naquele tempo cantaríamos juntas: “Work, work, work, work…!” Eu gostava de ser responsável pelo resultado que seria visto, não me comovia tirar fotos. Me arrependo muito dessa particularidade caxias por demais. Hoje adoraria repousar meus olhos nas lembranças do que foi um tempo mágico da TV brasileira. Artístico um tanto, menos tecnológico, menos fulgás, menos descartável. Sucessos demoravam para transpor das rodas de conversa e manchetes de jornais e revistas. Alguns se firmaram naquela idade para nunca mais serem esquecidos. Elke Maravilha é um exemplo.
Elke era uma silêncio, uma segurança, um integral estado de ser. De certa forma, me sentia protegida ao conversar com ela. Era uma porta-voz da vida. ta-estandarte de causas. ta-bandeira da alegria.

Pré-pautas são feitas com entrevistas intermináveis para a alegria de quem gosta de histórias e tem a curiosidade porquê motor criativo de sua profissão. Conversávamos muito antes de uma participação em programa. Falava e sabia falar com maestria sobre tudo. Alegoricamente guloseima.
Atriz, cantora, multi-coisas, multi-woman, multiplicante. Sempre disponível porquê se soubesse que as pessoas precisavam ouvir, ouvir, ouvir e só depois de muito ouvir, refletir… Longe dela ser dona da verdade, imagina! E isso fazia com que ela sustentasse as mais puras interpretações de fatos.
(……..)
Era madrugada e eu voltava do trabalho, Liguei o rádio para as primeiras notícias. Ouvi o que não queria. Elke Maravilha havia morrido. Cheguei em lar, escrevi o que senti e cá reproduzo. Não consigo desviar meu pensamento de que o mundo está mais esgar, sem nossa ta-bandeira da felicidade. Histórias haverão ainda mais. Mas por essa semana, fica cá um singelo registro. Viva Elke.
“Elke, topa trovar em russo no Ronnie?”. E o palco virava um cabaret à lá Lilinovska Marlenovska. “Elke, vamos fazer um debate sobre monstro, topa?” E o sofá se transformava em tanque público de lavar roupa suja. “Elke, vamos falar mal dos outros?”. Sim, com toda a delicadeza, na frente das câmeras. “Labareda a Elke”. Quantas vezes disse isso para fechamento de programa… Inúmeras. Amiga Elke, sempre presente e disposta, toda SIM pra vida. Quando não, qualquer bom motivo a prendia em mansão. Desde o apê na Av Paulista, até sua mudança pro Rio. E que apê aquele da Paulista, heim, Elke? Lotado de memórias. Porquê aquela em que foi presa na ditadura por arrancar da parede do aeroporto o edital de “terrorista procurado” do fruto de Zuzú Angel, sua amiga. Elke é pop. Hiper pop. Tá fazendo falta. E eu to triste.

Nascente: Carmen Farão

