Nesse ofício que escolhemos, surpresas reservadas só pra gente de lida com bastidores da notícia, às vezes são revigorantes. Outro dia mesmo, durante o plantão de ano novo, tive a grata surpresa de dividir minhas responsabilidades com o colega de um pretérito nervoso, no bom e melhor dos sentidos. Nervoso de apaixonante, completo, provocador. Do primícias de tudo. Não nos conhecíamos, mas nos encontramos imediatamente na saudade do que era fazer TV e Rádio na unha, sem saber recta porquê funcionava aquilo, quando conhecimento, bom português e siso eram condições primárias para permanecer na extensão valorizados. Ele foi produtor de grandes shows, viajou o Brasil e deixou tudo de si – porquê era e ainda é praxe dos daquela idade – nos palcos dos Menudos, festivais de Rock e mesas de som de rádios nessa longa estrada da vida. A saúde, inclusive. Num determinado momento me confidencia que o corpo apitou sofrendo com tanta judiação e descaso: síndrome do pânico. Travou. Não conseguia fazer mais zero e o pavor diante de tudo o que se relacionava à profissão acabou com ele. Um fera. Largou tudo e foi se cuidar. “Largar tudo”… a gente nunca larga. Seus olhos se enchiam de orgulho contando o que já tinha feito e tudo o que sabe, e porquê somos subutilizados hoje dia. Ouvindo palavras inteligentes e interessantes, lembrei das inúmeras sensações deja-vu nas programações de TV de meu estágio aos 17 à uma das minhas atuais condições no jornalismo. Porquê zero importava, porquê a premência dos “novos” conceitos e “novos” profissionais mudaram o caminho de tanta gente. Constatamos nós dois que na verdade é o país que não valoriza a cultura e as artes, pense na TV, uma “arte menor” naqueles tempos de teatro do contra-senso e contestações.
Desci para tomar um moca.
Trabalho muito à noite e de madrugada, aquelas manhãs vendo o sol nascer da ingressão da redação pediam um muito poderoso, com um pingo de leite vez ou outra. Impossível depois de uma conversa dessas não pensar história, meu objecto predileto. Auge, decadência, doação, desprezo, luta e vitória. E decepções, muitas. As que passamos e causamos. A relação com os meios de informação eletrônicos nos tempos que nos criamos, se parece um pouco com ser mãe pela primeira vez: sem manual, sem regras, agindo no instinto e na maioria das vezes, ocional. O ar condicionado nos deixava num inverno ad eternum que palato. Penso, ajo e me sinto melhor sem o peso do calor insano do lado de insignificante do equador. Revisitei meus Mestres que tanto me ensinaram e ensinam até hoje. Meuis guias. Geniais. Os nem tão geniais, mas absolutamente senhores dos negócios e comércios, com quem aprendi sobre show business . Decidi que apesar de ter conseguido relativo sucesso e proveito na minha dimensão, zero tinha a ver com a sorte. Não tive a sorte de invadir o que conquistei. Pai bancário, mãe dona de mansão. Ninguém na espaço para dar um purrão ou ajudar. O talento, originalidade, força de vontade, leituras, audições particulares, curiosidade e persistência me mantiveram porquê estou hoje: de pé, limpa. Orgulhosa.
Pânico?
E as loucuras que fazíamos… um incêndio no meio da cidade. Corre pras páginas amarelas, pega um telefone de endereço próximo, o mais perto! Liga e pergunta pra vizinha o que ela vê, o que está acontecendo. Redige o texto e bota pra rodar. No tele-prompter do apresentador que rodava na manivela com a lauda colada sobre um espelho. Uma imagem, uma única imagem… um prova, lábia do repórter ou produtor… Não há conferência com os dias de hoje, graças à Deus! Delícia que é ter ferramentas, instrumentos que facilitam apuração, reportagens, ….
Voltei para a edição e meu novo colega estava lá, me aguardando. Com a frase melhor de quando nos conhecemos. Entre uma correria e outra própria do jornalismo factual, falamos de Flávio Cavalcanti, Chacrinha, os tele-teatros, as matérias jornalísticas filmadas acetato porque não havia videotape. Comparamos com hoje, deliciados com a facilidade. Concordamos que aquele pretérito, nunca mais. Tecnologia incomparável, facilitando a vida, o trabalho, socializando a informação. Quando me disse que era fruto do diretor dos filmes de Mazzaropi, mitou. Mostrou o pai tocando acordeon dizendo que crescera nesse envolvente e que tinha feito até pontas quando era pequeno. Um entre tantos experientes que por razão qualquer, não faz a diferença hoje. Não neste pais. Aceitamos que ainda temos muito que aprender, que vivemos disso: aprender e saber, e que poucos revelam o que não sabem. Misturar o desassossego do novo com a solidez da experiência…
Ces’t la vie mon ami.
Seguimos os dois aquele dia, mais felizes ou menos aborrecidos na certeza de que existem muitos de nós por aí. Foi bom. Muito vindo, custoso novo camarada à história de quem fez história despercebido, mas orgulhoso. Uma linda história!
Manancial: Carmen Farão
