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Hoje o cara da NET não vai subir

Volta e meia aparece lá casa um homem diferente.

Semana passada, foi o homem do gás. Antes, veio o homem da luz de tesoura na mão pra me cortar os fios só porque atrasei oito meses de conta. Teve também o homem do Carrefour com as compras, o do Magazine Luiza e a lavadora, o do bazar com a cama usada.

O calendário mostra que amanhã tem mais visita agendada, mas, olha, tô achando melhor cancelar – parece que a NET não anda com a melhor reputação do mundo no momento, talvez seja o caso de falar com eles pelo telef… OH WAIT.

Em tempos normais, quando a privacidade ainda não fora extinta, o máximo que acontecia de ruim numa ligação pro telemarketing era a gente se estressar e desejar a morte do atendente. Hoje dia, no entanto, o negócio evolui prum caminho mais dramático. O caminho do xaveco babaca versão deluxe.

Há quem diga que o sujeito da central da NET mandar mensagens pessoais no celular duma cliente depois do atendimento é algo inofensivo, que não há nada de mais. Ahã. Devem ser estas as mesmas criaturas que não enxergam problema mandar um fiu fiu pra moça na rua, chamar de gostosa a menina no trem.

É tudo invasão.

Do mesmo modo que o fato das pernas suculentas duma mulher estarem expostas debaixo da saia não significa que ela se comporte como uma vadia, a simpatia da cliente com você, TELEMARKETER, tem apenas um significado: ela é um ser humano legal. Só.

Porque, se beleza nenhuma é convite para assédio, a cordialidade com o próximo também não é ingresso para nada.

O atrevimento do atendente da NET com a jornalista, que veio a público esta semana, é injustificado e asqueroso e, acima de tudo, olha que triste, é cada vez mais comum numa sociedade que entende que mulher é objeto coletivo. Que encara uma quebra de privacidade como algo legítimo, desde que não haja violência.

Afinal, que mal tem passar uma cantada? Mulher não gosta de elogio?

Sim, mulher gosta. A gente só não curte ser acossada.

Há mil maneiras de se aproximar de alguém nesta vida. Sempre houve. Problema é que, um mundo acostumado com cada vez mais facilidades para desvendar o outro, com aplicativos de cortar caminho do flerte direto pra cama, parece que a propriedade do indivíduo sumiu.

Se não se tem mais direito ao próprio corpo, o que dizer da privacidade de algo aparentemente tão besta quanto um número de celular?

O jeito agora é vedar tudo, do telefone às portas. Deixar o porteiro avisado de que nem adianta interfonar falando que o moço da NET vai subir – porque não, ele não vai subir coisa nenhuma.

Lá casa, só sobe mesmo quem me demonstra respeito, seja como cliente, seja como indivíduo. Gente desaforada espera pra sempre lá baixo, de ordem de serviço mofando na mão, e, humilhado, com o cabo enrolado entre as pernas.

O Hoje o cara da NET não vai subir Blog Bonitinha, mas Ordinária.

Fonte: Blog Bonitinha, mas Ordinária

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