Um juízo: não tenha, não, um bicho de estimação. Não compre, não adote, não aceite doação.
Porque ter um bichinho em mansão muda a vida para sempre, e quem quer um pouco assim acontecendo à sua rotina? Quem, em sã consciência, escolheria furar mão de viagens, passeios e noites de sono por um ser feito de carência e sujeição?
Não, não, me ouça: não tenha um melhor camarada. Ou você vai se ver diante do hábito de, logo que meter a chave na tranca, escutar o som de patinhas correndo em direção à porta para te saudar com empolgação – ter um animalzinho é se sentir estremecido e necessário de uma forma que nenhum ser humano consegue ofertar e, honestamente, quem deseja isso? Oras.
Não adote um cão, não adote um gato. Não se submeta à sensação de ter sobre si um par de olhos eternamente gratos pelo seu gesto, enlouquecidos em devoção e subserviência. Para quê, me explica?
Quem escolheria acoitar um ser que surrupia meias da gaveta, saqueia geladeiras, se farta escondido dos sobras no lixo e ainda ousa vir lhe empregar um ósculo nas bochechas?
Alguém que pede atenção. Que pede carinho. Que pede, ponto.
Poupe-se, leitor, da amizade duradoura e mais altruísta que se pode testar. Furte-se da companhia deles, de seu corpo quente sobre o nosso, de seus sons adoráveis, de sua informação simplória e eficiente. Não se submeta ao toque macio da sua pele, seu fuça próximo à sua boca, duas vidas respirando o mesmo ar, no mesmo ritmo.
Esquive-se das lambidas. Dos rabos abanando. Dos ronrons e barrigas cor de rosa para cima.
Fuja à responsabilidade de alimentá-los, cuidá-los quando enfermos, e, sobretudo, da era mais triste da vida, quando chega, enfim, a hora de eles descansarem.
Quando, exaustos de paixão e alegria, envelhecem, embranquecem, murcham. Caem bigodes, fraquejam os ossos, e, já em conexão com o firmamento dos bichos, despedem-se de nós com profundo reconhecimento e saudade antecipada. Quando, pela última vez, cerram os olhos, não sem antes olhar fundo dentro dos nossos, uma maneira de corrobar que a mensagem de paixão seja recebida.
Adeus, camarada, não demore ao nosso reencontro, dizem sem palavras, ao mesmo tempo em que agradecem por, um dia, termos apetecido a maior felicidade passível de se inferir no mundo através de uma outra vida.
Levante é em homenagem e força à minha namorada Zoe
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