O ano que rezei por Andressa Urach e outras histórias

Morrer de vaidade seria uma imensa estupidez

Quem segura a fama ostentando o título de ex-vice-miss Bumbum segura qualquer bucha. Andressa Urach é a personagem de 2014 mais blemática desses tempos obscuros que vivemos, que a imagem vale uma vida. E, sim, fiquei penalizada com o drama da moça, que, a despeito do corpo bem torneado, continuava sua busca insana por uma perfeição inatingível, a ponto de colocar a vida risco troca de um pernão fajuto. É a doença da fama, que desnuda corpos e destrói reputações.

O mundo das celebridades sempre viveu de sugar o sangue alheio, nem as grandes divas de Hollywood escaparam dessa sede. Mas o que temos hoje à mesa é uma ceia farta de vidas dos outros, expostas selfies, viradas do avesso por conta própria. Ninguém precisa fazer esforço para acompanhar a rotina alheia. Todos se exibem sem filtros.

Ver Urach quase morrer me deu uma angústia danada. O que essas gurias estão fazendo com elas mesmas? Se matando para arrancar meia dúzia de assovios? Em um ano que a mulherada brigou tanto contra o fiu fiu, tudo soa contraditório. Foi o ano que as redes sociais berraram contra a pesquisa do Ipea, que apontava números o que qualquer brasileira sabe desde que nasce: saia às ruas, com qualquer roupa, qualquer horário, qualquer circunstância, e aguente o assédio. O que a pesquisa revelou (mesmo que depois tenha sido dito que os dados não eram bem aqueles) é que a mulherada ainda vai topar de frente com muito marmanjo que acredita que elas merecem ser estupradas por estarem com uma roupa provocante.

E há até porta-vozes dessa ideologia, disfarçados de personal trainers da auto-estima masculina, como Julian Blanc, que causou alvoroço com suas técnicas de sedução, que incluem quase estrangular uma menina ou puxar a cabeça das fulanas direção a seu pênis. Mulheres desconhecidas, abordadas aos borbotões, para garantir a ele e seus seguidores o título de comedores do ano. Uma verdadeira escola de predadores.

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Tudo fica ainda pior quando estupradores e matadores de mulheres viram galãs de presídio, como o serial killer de Goiânia, acusado de 41 mortes, e responsável por uma avalanche de propostas indecentes. Que mulheres são essas, que se apaixonam por matadores de mulheres? De novo a fama, sempre ela, a justificar o desejo despertado por um ser humano vil, pelo simples fato de que aquelas que não se acham nada podem ganhar o aposto de “namorada do assasino X, Y, Z”, e assim se transformarem alguém.

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Rezei pela saúde de Urach por não suportar a ideia de que uma menina de 27 anos possa morrer de forma tão estúpida, vítima da própria vaidade, deixando aí um filho e uma mãe. Recuperada e casa, ela diz que vai repensar sua forma de encarar o mundo. Que o mundo também possa ser mais generoso e que tenhamos todos menos fome pelas vísceras alheias.

Feliz 2015 a todos!

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db

 

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