1980
Eu e esse meu amigo buscávamos tudo o que havia de alternativo na cidade de São Paulo naqueles anos. Diferentemente de hoje, espaços e acontecimentos alternativos eram realmente alternativos. Não era moda, não surtia efeito, não era chique, não traria nada de novo ao nosso currículo, não nos tornaria mais competitivos no mercado nem ensinava política. Mas agregava pácas. Nossos assuntos nas festas loucas da Faculdade de Comunicação iam da nova canção de Moraes até o clássicos na Fundação Maria Luiza e Oscar Americano
Foi Quando Conhecemos Gil Vicente
Gil Vicente. Nunca mais esqueci. Nunca mais consegui gostar. De inegável importância, sei que preciso rever esse conceito. Mas tem uma explicação. Explicarei. Primeiro vamos nos situar, esticar os ossos, estalar os dedos e responder às perguntas que andam figurinhas fáceis aqui na coluna, o quem é?
Quem é Gil Vicente?
Português, ora pois, pois. Um dos s dramaturgos, atores, escritores, cantores de Prrrrrrrtugal. Seus Autos retratam a história e a sociedade prrrrrrrtuguesa da época – século 16 (sim, googlei pra não errar o tempo). Auto, segundo o Pequeno Glossário de Literatura – achei tão bonitinha a explicação que copio e colo com louvor – é o seguinte:
Breve peça de religioso ou profano, geralmente verso, que se originou na Idade Média. Em tugal, alcançou seu apogeu na obra de Gil Vicente, no século XVI. No Brasil, José de Anchieta o pregou sua missão de catequese do indígena e educação religiosa do colono. Em nossos dias, é praticado muito esporadicamente, merecendo destaque o Auto da Compadecida (1959), de Ariano Suassuna.
Isso eu não sei, só sei que foi assim.
Pois, bem. Fomos eu e esse meu amigo assistir a peça que nos chamou atenção pelo nome: O Auto da Barca do Inferno. Era um festival de teatro amador. Havia muitas vagas ainda na platéia, muitas mesmo quando a peça começou. Era sobre a barca que levava os tais e tais para o inferno e coisa e tal. Durante algumas horas – é um auto que de breve não tem nada, desacordando sua definição – ouvíamos repetidamente com pouco intervalo entre um brado e outro: a baaaaaaarca! Sempre que algo acontecia ou ia acontecer ou não, um ator dizia: a baaaaaaarcaa! Assim, carregado no aaaaaa mesmo, dramático, com a voz projetada. Anunciando o medo das personagens de serem pegas pela baaaaaaaaaarca quando chegava, Era um anúncio de morte. E era de matar. Não estávamos preparados para aquilo.
Éramos educados e respeitávamos o trabalho alheio, a dura função de quem ousava fazer arte, principalmente.
Éramos do tipo que jamais abandonaríamos o baaaaaaaaarco, mesmo diante de uma situação vexatória. Mas, desta vez, não conseguimos. Envergonhados de nossa falta de consideração, lá pelo quinquagésimo a baaaaaaaaarcaaa! nos olhamos e levantamos tentando ser o mais discretos possível ao sair do teatro. Foi uma experiência e tanto. Raramente eu dizia horror, horror. Mas, não deu. E O Auto da Barca do Inferno ficou na minha história e memória como uma coisa chata, daquelas obrigatórias. Fui saber quem era Gil Vicente e conhecer sua importância. Só conseguia escutar: a baaaaaaarca! Ainda assim, é preciso conhecer Gil Vicente, estudar Gil Vicente. Vai, pelo menos saber quem é Gil Vicente e do que se trata o tal Auto da Barca do Inferno
O curioso é que hoje, passados tantos anos, todas as vezes que alguma coisa pesada acontece ou está para acontecer, uma coisa chata, eu e meu bom humor que faz com que o mal estar passe logo, repetimos: a baaaaaaarcaaaa!. Ninguém acha a mínima graça, claro. E quem acharia? Gestalt terapia explicada. Ou quase.
Fonte: Carmen Farão
