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Recaída exige cuidado redobrado

Um problema de saúde recorrente, que exige um alerta constante. Apesar das inúmeras campanhas para conscientizar a população sobre as formas de prevenção, a dengue continua fazendo vítimas no Ceará: só 2014, segundo a Secretaria da Saúde, já foram notificados 12.903 casos, sendo 175 com sinais de alarme e 39 de dengue grave (e 31 óbitos).

"Em geral, a dengue é uma doença benigna, que pode acometer um indivíduo até quatro vezes. Quando uma pessoa tem dengue pela segunda vez, as chances de ter complicações são muito maiores do que quando acometida pela primeira vez", explica Anastácio de Queiroz Sousa, médico infectologista, professor da Faculdade de Medicina/UFC e membro honorário da Sociedade Americana de Medicina Tropical.

Os quatro sorotipos da dengue causam a mesma doença. Entretanto, a intensidade e a gravidade dos sinais e sintomas variam de uma pessoa para outra, devido a uma série de fatores. Para muitos indivíduos inoculados com o vírus existem poucos ou quase nenhum sintoma, enquanto outros a doença pode ser fatal.

Dos quatro sorotipos, os tipos 1,3 e 4 ‘circulam’ no Ceará, com predomínio para o 1 e o 4. Todos podem causar lesões órgãos como fígado, cérebro, coração e medula óssea.

A dengue é subnotificada porque a doença é, muitas vezes, mal diagnosticada devido a um grande espectro de sintomas clínicos que vão de formas leves não específicas a formas com complicações fatais, e também devido às limitações dos sistemas de vigilância.

Segunda vez é sempre pior

As particularidades com que a dengue se apresenta hoje são explicadas pelo Dr. Anastácio Queiroz: quot;quando uma pessoa tem dengue pela segunda vez, a defesa imunológica que ela desenvolveu contra o vírus, ao invés de protegê-la, atuará de forma desfavorável, levando ao aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos. Isso favorece o extravasamento de líquido do espaço intravascular para fora dos vasos, acarretando queda da pressão arterial, que pode desencadear falta de ar. Outras alterações ocorrem e, se não forem tratadas, levarão eventualmente à morte".

Para entender a complexidade da patologia, é preciso conhecer os sinais característicos. quot;Os da dengue grave são dor abdominal, vômitos, tontura, sangramento e falta de ar. São sintomas de outras doenças, o que explica, muitas vezes, o diagnóstico tardio de dengue grave, às vezes revelado apenas após o óbito", diz.

Anastácio de Queiroz Sousa afirma que, bora este ano o número de casos de dengue esteja menor do que 2013, os óbitos continuam ocorrendo. Isso se deve, segundo ele, ao fato de que muitas pacientes já tiveram a doença uma primeira vez.

Por enquanto, o único meio efetivo continua sendo o de combater o Aedes aegypti, que se multiplica água limpa e parada, ambientes que continuam a existir do mesmo modo de quando a doença foi notificada pela primeira vez no Ceará, 1986. Vasilhames plásticos, cascas de coco, garrafas, tampas, sapatos e outros objetos inutilizados deveriam ser sumariamente eliminados. quot;Infelizmente, o trabalho ainda é feito de forma parcial, ou não é feito".

Além da dengue, o Aedes aegypti transmite a febre amarela e a chikungunya. A febre amarela ocorreu pela última vez no Brasil, território urbano, 1942. possuir uma vacina efetiva e ter como reservatório animais silvestres, deve continuar restrita a pessoas não vacinadas que adentrem florestas/animais contaminados.

Já a febre chikungunya possui sintomas similares à dengue, acrescidos de fortes dores nas articulações, mesmo após a cura. O vírus avança rapidamente no continente americano. Casos autóctones (contraídos no próprio país) foram identificados na Venezuela. No Brasil, a doença já foi notificada, inclusive com um caso no Ceará (o vírus foi contraído viagens ao exterior). Infelizmente, Dr. Anastácio acredita que a doença será disseminada breve. quot;A chegada da chikungunya ao Brasil e Ceará é questão de tempo. Há todas as condições para que a doença se instale por aqui".

Avanços na eficácia da vacina

As pesquisas para encontrar novos meios de prevenir a dengue apresentam avanços significativos. No início de setembro foram divulgados os resultados do estudo de eficácia (fase III) da vacina candidata contra a dengue desenvolvida pela Sanofi Pasteur.

O objetivo clínico primário foi alcançado com sucesso: mostrou uma redução global de 60,8% dos casos de dengue crianças e adolescentes de 9 a 16 anos de idade, após um esquema de vacinação de três doses. A vacina se mostrou eficaz para os quatro sorotipos.

Observações adicionais revelaram uma redução clinicamente importante de 80,3% no risco de hospitalização devido à dengue durante o estudo.

Os resultados também comprovaram, na população estudada, eficácia contra a febre hemorrágica da dengue (FHD), a forma grave da dengue1, o que é consistente com os resultados divulgados para o estudo de dengue de fase III da Sanofi na Ásia. fim, as pesquisas sugerem uma melhor proteção caso de exposição prévia à dengue.

Expectativa e cautela

Dr. Anastácio de Queiroz afirma, contudo, que é necessário continuar desenvolvendo estudos que tragam resultados ainda mais satisfatórios. quot;A notícia da vacina deixa claro que teremos, alguns anos, uma realmente protetora contra a dengue".

A efetividade média de 60% da vacina apresentada é pouco para o que se espera de uma boa vacina, pois o ideal é uma proteção acima de 90% (e será administrada três doses).

O infectologista complementa que outros laboratórios logo apresentarão seus resultados. quot;Esperamos que sejam melhores. Acredito que os conhecimentos adquiridos até aqui favorecerão ao aperfeiçoamento de uma vacina que ofereça proteção acima de 90% e que possa ser aplicada uma ou duas doses", pondera Dr. Anastácio de Queiroz.

SAIBA MAIS

A dengue é uma ameaça para quase metade da população mundial e é uma prioridade de saúde pública urgente mais de 100 países nas Américas e na Ásia;

A meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) é a de reduzir a mortalidade por dengue , pelo menos, 50% e morbidade , pelo menos, 25% até 2020;

A cada ano, estima-se que 500 mil pessoas, incluindo crianças, tenham dengue grave com necessidade de internação hospitalar, o que coloca uma enorme pressão sobre os sistemas de cuidados de saúde durante surtos;

A dengue aumentou dramaticamente nos últimos 30 anos, com uma aceleração ao longo da última década. Os casos de dengue notificados nas Américas aumentaram cinco vezes, passando de 517.617 casos 2003 para nível sem precedentes de 2,3 milhões de casos 2013.

Ranniery Melo
Especial para o Vida

Fonte: Vida

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