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Sobre parto

Nunca tinha pensado muito sobre isso #8211; era automático na minha cabeça antes mesmo de pensar em engravidar que quando tivesse filhos seria por parto normal. Era algo óbvio pra mim: é o natural, é o normal, é o que as mulheres vêm fazendo há anos e estamos todos aqui. Mas eu não sou radical #8211; nunca considerei um parto sem anestesia, por exemplo, ou condenei alguém que fez uma cesárea #8211; acho sensacional que tenhamos um recurso tão importante que pode salvar vidas quando bem indicado. Desde a primeira consulta do meu pré natal que falo disso com a ginecologista/obstetra que me acompanhava desde os meus 14 anos. Uma pessoa que conheço há muito tempo e já me sinto à vontade, afinal são visitas anuais desde essa época. Sempre comentei que ela me parecia uma médica muito tradicional: não pedia ultra-sons desnecessários (mesmo eu morrendo de curiosidade no início da gravidez), era cautelosa ao falar das minhas viagens apesar de nunca me proibir de fazer nenhuma delas, gastava pelo menos uma hora cada consulta conosco, respondendo tudo que perguntávamos.

parto

Só que eu sou uma pessoa naturalmente curiosa. Rodei o Google inteiro lendo s e relatos sobre gravidez, entendendo melhor o cenário atual normal x cesárea mas com certo receio, sempre tive pavor das discussões radicais, de mulheres condenando outras mulheres. Um dia li um estimulando que as grávidas usassem um direito novo, que passou a valer Julho com a resolução 368 da ANS. Essa resolução obriga os planos de saúde a fornecerem as estatísticas de partos dos médicos conveniados, e mesmo com um pé atrás (morrendo de medo), pedi a da minha médica. A OMS recomenda que a taxa de cesáreas não ultrapasse 15% dos partos realizados. O Brasil está longe dessa recomendação (no setor privado chega a 88%!), então eu esperava algo do tipo 60/40… Sei lá, estava otimista. isso fiquei literalmente choque ao ler o documento que dizia que mais de 90% dos partos da minha médica eram cesáreas. Não consegui nem chorar (olha que tá fácil ultimamente hein), só levei o documento pro Leo olhar sem conseguir falar nada.

Eu não queria acreditar muito naquilo, então esperei a consulta seguinte pra conversar com a médica sobre parto. Não falei sobre o índice (nem sei se os médicos são notificados quando um paciente solicita), mas fui perguntando sobre TODOS os tópicos polêmicos e que até então eu tinha medo de perguntar: risco de cesárea, episiotomia, colírio de prata no bebê, quem entra na sala, de é o parto… Ela respondeu a todos, como sempre fez, mas depois de sair do consultório fiquei pensando nas respostas dela… E marquei outro médico. Depois de ler aquele percentual e de ouvir da médica que vários procedimentos que hoje são comprovadamente feitos rotineiramente sem necessidade são regra por ali, entendi que não tinha encontrado a pessoa certa para me acompanhar.

Demorei alguns dias pra ter coragem de marcar outro médico. Não fazia ideia de quem poderia me atender e a ideia de trocar de médico já na 24ª semana de gravidez me parecia maluca… Mas sabe quando fica uma coisa martelando na sua cabeça? Quando liguei no consultório do médico que me parecia mais próximo do que esperava já senti a diferença ao telefone. A consulta não demorou tanto a chegar e depois de mais de uma hora conversando, vendo fotos, recebendo s para que eu me informasse, já sabia que estava no lugar certo. Sabe quando não existem rodeios, meias palavras? Tudo é esclarecido e o sentimento que tive ao sair dali foi de que estava num lugar que me respeitava, que queria ouvir o que eu tinha a dizer. 

Depois disso tudo acabei finalmente assistindo ao documentário #8220;O Renascimento do Parto”, que toooodo mundo me recomenda desde o início da gravidez. Confesso que tinha um pouco de medo do que poderia ver, mas depois de passar por esse processo eu mais chorava do que assistia, porque me vi representada na tela várias vezes #8211; a sensação é a de que tinha conseguido sair do sistema padrão, escapado de ser mais uma mãe com um parto traumático pra contar depois. 

Ainda não sei como vai ser meu parto #8211; por mais que tenha preferências e vá fazer um plano de parto sei que muita coisa pode acontecer. Mas agora que encontrei uma equipe que está mais alinhada com o que acredito espero que seja da melhor forma possível #8211; no tempo da Bia, normal ou cesárea se necessário, mas com respeito e entendimento de que quem está ali é uma pessoa, que tem preferências, medos e sentimentos.

Recomendo a todo mundo que assista a esse documentário. Quanto mais gente entender o que está acontecendo hoje e questionar os médicos, maiores as chances desse índice mudar e os relatos de partos traumáticos diminuírem. Um momento tão especial deveria ser lembrado assim, né?

O Sobre parto Chata de Galocha! | Lu Ferreira, e é de autoria de Lu Ferreira.

Fonte: Chata de Galocha! | Lu Ferreira

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